O relatório “Chemical pollution and men´s health: a hidden crisis in Europe”, publicado pela HEAL em novembro de 2025, sintetiza dados europeus e descobertas científicas recentes. Conclui que a poluição química é uma ameaça crescente e subestimada para a saúde humana, representando riscos únicos e muitas vezes negligenciados para os homens em toda a Europa.

Principais conclusões do relatório

1. Tendências alarmantes na saúde masculina

Evidências científicas crescentes associam a exposição a substâncias químicas ambientais nocivas a uma série de consequências graves  para a saúde masculina. As tendências observadas em toda a Europa são preocupantes:

  • Cancro da próstata: As taxas aumentaram de forma constante ao longo de duas décadas. É o terceiro cancro mais diagnosticado entre os homens da UE. Estima-se que 330 mil novos casos sejam diagnosticados anualmente, representando 12,1% de todos os casos de cancro em homens.
  • Cancro testicular: A incidência tem aumentado continuamente desde os anos 80, especialmente entre jovens de 15 a 44 anos. Projeta-se um aumento de 25% em relação a 2014. As taxas mais elevadas concentram-se no Norte e Oeste da Europa.
  • Infertilidade masculina e queda na contagem de espermatozoides: A infertilidade masculina afeta até 1 em cada 12 casais na Europa. Globalmente, as contagens  de espermatozoides diminuíram mais de 50% nas últimas décadas, tendência também observada na Europa.
  • Disfunções hormonais e sexuais: O hipogonadismo (baixa testosterona) está a tornar-se uma preocupação crescente. A disfunção erétil é subnotificada, mas está a aumentar — um em cada três homens em França sofre deste problema.
  • Disparidades geográficas: Dados de França, Alemanha, Itália, Polónia, Suécia e outros países mostram taxas crescentes de distúrbios reprodutivos masculinos. “Hotspots” regionais coincidem com áreas de elevada contaminação química, como PFAS no norte de Itália (Vale do Pó) e pesticidas em regiões agrícolas francesas.

2. Principais substâncias químicas que impulsionam a crise

O elo comum entre esses problemas é a poluição química. As pessoas na Europa estão expostas, de forma crónica e generalizada, a uma variedade de substâncias químicas que interferem com o sistema hormonal e danificam os órgãos reprodutivos.

  • Disruptores endócrinos (EDCs): Interferem no sistema hormonal, especialmente no sistema reprodutivo masculino.
    • Ftalatos (presentes em plásticos e cosméticos): reduzem a qualidade do sémen e os níveis de testosterona.
    • Bisfenóis (como BPA, BPS, BPF, em recipientes alimentares): associados à redução da concentração e mobilidade dos espermatozoides e a desequilíbrios hormonais. Em alguns países, o projeto HBM4EU detetou BPA em até 100% dos participantes.
    • Pesticidas: conhecidos disruptores endócrinos e tóxicos reprodutivos, especialmente para trabalhadores agrícolas.
  • PFAS (substâncias per- e polifluoroalquiladas): “Químicos eternos” persistentes e tóxicos, detetados em mais de 95% da população da Flandres, associados à redução da qualidade do esperma e da testosterona.
  • Microplásticos e nanoplásticos: recentemente detetados em sangue, sémen e tecido testicular humano. Estudos sugerem que prejudicam a espermatogénese, perturbam a produção de testosterona e provocam inflamação.
  • Metais pesados (cádmio, chumbo e mercúrio): associados à redução da contagem e morfologia anormal dos espermatozoides e a desequilíbrios hormonais.
  • Efeito cocktail: A exposição combinada a múltiplos químicos, mesmo em baixas doses, amplifica a toxicidade. Um estudo europeu revelou que, em pessoas muito expostas, os níveis combinados ultrapassavam os limites seguros em mais de 100 vezes (mediana: 17 vezes), sendo o BPA o principal contribuinte para a deterioração do sémen.

3. Consequências intergeracionais e económicas

  • Impactos intergeracionais: A exposição química afeta não apenas o indivíduo exposto, mas também os seus filhos. A exposição materna a EDCs está associada a malformações genitais (como hipospádia, criptorquidia) e cancro testicular nos filhos. A exposição paterna antes da conceção altera a epigenética do esperma, afetando a saúde a longo prazo da descendência.
  • Custos económicos avassaladores: O impacto económico das doenças reprodutivas masculinas associadas à poluição química é estimado em pelo menos 15 mil milhões de euros por ano na UE.
    • O custo do tratamento do cancro da próstata ultrapassa 9 mil milhões de euros anuais.
    • Os tratamentos de infertilidade custam entre 6 e 9 mil milhões de euros por ano.
    • Estes valores incluem despesas médicas, perda de produtividade, incapacidade de longo prazo e impactos subestimados de distúrbios hormonais e sexuais.

4. Apelo a uma ação política urgente

As evidências científicas exigem uma resposta política imediata, já que os mecanismos regulatórios atuais são insuficientes para proteger a saúde reprodutiva masculina.

  • Revisão do REACH é crucial: A revisão do regulamento REACH (Registo, Avaliação, Autorização e Restrição de Substâncias Químicas) é uma oportunidade histórica para reforçar a proteção da saúde.
  • Necessidade de uma estratégia abrangente: Implementação completa da Estratégia Europeia de Sustentabilidade para os Produtos Químicos, alinhada com o Plano Europeu de Combate ao Cancro e o Plano de Ação para Poluição Zero.
  • Recomendações regulatórias:
    • Acelerar a identificação e restrição dos Disruptores Endócrinos( EDCs).
    • Adotar proibições por grupo químico (todos os bisfenóis, todos os orto-ftalatos).
    • Tornar obrigatória a avaliação de toxicidade das misturas.
    • Expandir a regulamentação para incluir polímeros, microplásticos e aditivos.
  • Custo da inação: O custo de não agir é muito superior ao custo da prevenção.

 

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